01/02/2018

Com a coreógrafa Joana Providência, dança a vida quotidiana do mundo


É difícil de imaginar Joana Providência trancada numa sala de espetáculo, construindo uma coreografia sozinha. Para dar vida ao movimento, ela tem de conhecer pessoas, sejam elas, artistas, filósofos ou pastores. Dialogar para tocar as raízes da nossa humanidade, em busca do que nos liga e nos conecta, além do tempo e do espaço.



No hall do teatro municipal de Bragança, um cartaz anuncia "VESTÍGIO", o próximo espetáculo de Joana Providência. Ela está serena e confiante. O sol entra profusamente através das grandes baías abertas para a cidade. O seu cabelo encaracolado dança na luz. Os seus olhos estão perdidos nas memórias da infância.
 


"Eu dançava a fazer as tarefas domésticas"


"Quando eu tinha sete anos, o que eu mais amava era imaginar os dançarinos no palco, imaginando os movimentos de uma história que eu me estava a contar”. Ela aprende dança clássica, mas aos nove anos os seus pais querem que ela pare. Joana Providência faz uma pausa e os seus dedos deslizam sobre a mesa.
Um sorriso: "Eu dançava enquanto limpava... isto não escapou à minha mãe! "

A dança nunca mais a deixou: ela estuda com Fernanda Canossa e não perde nenhum espetáculo da companhia de dança contemporânea da Gulbenkian. Por isso, foi naturalmente que foi para Lisboa para seguir o curso superior de dança no Instituto Politécnico. Ela participa no festival ACARTE.

Ela acumula espetáculos, palestras, master-class e alimenta-se dessa maneira, ao dançar de forma tão diferente a dança clássica. E lembra-se: "Os dançarinos vinham de todo o mundo, eu podia assistir a um espetáculo e ficar na sala em silêncio comigo mesma durante duas horas sem me mexer. A belga Anne Teresa De Keersmaeker fascinou-me.

"Eu queria falar sobre o mundo"

"Eu percebi que não podia ser apenas um corpo dançante, senti que precisava de estar "fora". Eu queria ser aquele olhar para o que está a acontecer no palco. O corpo, coloquei-os em movimento ". Dia após dia, deixa-se imergir no mundo à sua volta. As ideias sobrepõem-se, empurram, amadurecem e transformam-se em coreografia. "Eu queria falar sobre o mundo, que ele vem do fundo de mim mesmo".

Em 1989, o show "In Tensões" e "Mecanismos" que ela construiu no final das suas aulas de dança circula em Portugal e em França. Com "Sustine e Abstine", em 1991, participa no Festival Klpastuck belga, aberto a jovens criadores. Desde 1995, é membro da Academia Contemporânea do Espetáculo, onde é professora e faz parte da direção artística da empresa Teatro do Bolhão, no Porto.

Com Georges Dussaud
Com Georges Dussaud

A inspiração de outros artistas

O seu trabalho como coreógrafa constrói-o ela pouco a pouco:
 "Eu trabalho a partir do trabalho de um artista que escolho. Parto da ideia que ele tem do mundo. Ele segue caminhos muito ricos, diferentes dos meus. Pensa a vida com sua visão”. 
Joana inspira-se em Paula Rego ("Mão na boca" em 2004), Graça Morais ("Terra Quente, Terra Fria" em 2011) ou Alberto Carneiro ("Território" em 2014). Na pesquisa que leva a cabo, ela associa os intérpretes num diálogo construído em torno de proposições.
Ela escava com eles os caminhos do trabalho e a dança toma as palavras, as imagens, a arquitetura do espaço assim aberto, os estágios do diário para se tornar coreografia em nossa imagem.

Em 2016, é Georges Dussaud que ela escolhe. Sente a humanidade profunda que emerge das fotos tiradas ao longo de trinta anos pelo fotógrafo em Trás-os-Montes, região áspera do norte de Portugal. Em fevereiro de 2017, a reunião está concluída. Georges e Christine Dussaud passam uma semana com o coreógrafo. As perguntas fundem-se, a escuta é profunda.

Dançarinos imersos na vida das pessoas

"Georges conhecia Eugénia, a mulher que oferece um punhado da sua colheita de castanhas, o cabeleireiro da rua de museo, os ciganos que lavam as cortinas dos túmulos antes do Dia de Todos os Santos, José Monteiro sob o retrato de seu pai. Ele fala disso como se fosse a sua própria vida, e está na foto que tirou tanto como está na vida das pessoas que ele conhece. Christine, sua esposa, está ao lado dele. Ela lembra as memórias, ela tem a sua visão. "

Depois desta semana cheia de emoções, é óbvio para Joana Providência que a terra de Trás-os-Montes deve falar com ela. Com a trupe, ela ouve Eugénia, José, Maria, Deolinda e os outros.
As histórias apegam-se à memória dos dançarinos e trazem, do fundo da sua infância, a sua própria história.

Eles vagam pelo campo, absorvendo o cheiro de marmelo. Os seus dedos seguem os sulcos da casca das castanhas antigas, a curvatura dos troncos... As suas orelhas seguem a voz do pastor com cinco cães que, com alguns latidos, reúnem as ovelhas em lã preta. Os seus olhos seguem a curva das colinas que tremem como ondas e a rigidez das paredes de xisto cortadas com uma faca.

 Então apareceu VESTÍGIO

 Na grama alta, Joana, Raquel, António, Daniela, João, Vera e Maria deitam-se e seus corpos já sabem. As histórias dos tempos passados combinam-​​se com o presente desta áspera terra de "nove meses de inverno e três meses de inferno"

De volta ao Porto. Primeiras improvisações ao ritmo das palavras de Miguel Torga, o escritor, nascido nas terras altas de Trás-os-Montes, este "alto ninho rústico e empoleirado que transmite elevação e amargura", mas onde "em pequenas aldeias, as boas e as más notícias passam pelas rachaduras das paredes" e onde "ele respira nessas montanhas um vento de desolação e miséria que nem permite que as urzes floresçam e que os gados pastem "

No show VESTÍGIO, as palavras de Torga misturam-se com as de Eugénia, José e Deolinda... Param nas fotos de Georges Dussaud e amplificam a sua humanidade. A emoção apreende o corpo das dançarinas e dos dançarinos. A improvisação torna-se uma narrativa aos olhos de Joana Providencia. "O olhar de Georges Dussaud é verdadeiro, é o de um mundo remanescente de uma vida e uma história que já não existem e a de uma memória coletiva em processo de desaparecimento. Quando trabalho sobre a criação de um artista cujo trabalho é rico em humanismo e significativo para o mundo, como o de Georges Dussaud, eu reinicio. A viagem que faço é um encontro comigo mesma, com um novo visual. Uma viagem à qual a VESTÍGIO nos convida.


Natália Amarante
Marie-Anne Divet


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Le billet de la semaine

​Bolloré en Indochine


Frappé en ce moment par la fuite de journalistes craignant de subir à leur tour, avec l’intrusion du Groupe Bolloré, la dérive droitière de Cnews, le journal L’Express va pouvoir au moins, dans un premier temps, conter les belles histoires du dit Groupe. La dernière se passe au Cambodge. Par amour du caoutchouc, le groupe  français accapare en 2008 des terres ancestrales de l’ethnie Bunong et y plante des hévéas. En 2015, des paysans se rebellent. Suivent divers épisodes. Le dernier a eu lieu le 2 juillet devant le tribunal de Nanterre et a été marqué par une belle victoire du droit français : celui de Bolloré contre les paysans cambodgiens incapables, ces indigènes, de fournir des droits de propriétés en bonne et due forme. Pour prix de leur toupet, ils devront payer en outre une indemnité de procédure au planteur français. L’avocat des Bunongs a aussitôt fait appel. Suspense. Le prochain épisode de Bolloré en Indochine sera à suivre, dans L’Express bien sûr. 

Michel Rouger
20210708_bollore_en_indochine.mp3 20210708 Bolloré en Indochine.mp3  (1.17 Mo)


08/07/2021

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